Coronavírus: o que é a dexametasona e por que não pode ser tomada sem indicação médica

0
123

© Getty Images Estudo de Oxford indicou redução de mortalidade com uso de droga em casos graves e moderados

Promessas de tratamentos podem trazer perigos, como o da automedicação.

Na última terça (16), um grupo de pesquisadores da Universidade Oxford, no Reino Unido, anunciou que, segundo um estudo realizado por eles, o corticoide dexametasona reduziu a mortalidade de pacientes de covid-19 em ventilação mecânica.

A notícia trouxe esperança, mas é preciso esclarecer desde cedo: automedicar-se é perigoso e, no caso da dexametasona e a doença causada pelo coronavírus, o uso do remédio sem acompanhamento médico e sem necessidade ou indicação pode acabar fazendo o contrário do que se deseja: dificultar o combate do vírus pelo corpo. Também pode causar outros efeitos colaterais. A droga só pode ser usada com acompanhamento médico.

O anúncio dos pesquisadores não coloca o remédio como uma cura para a covid-19, mas como um medicamento positivo para pacientes com indicação para utilizá-lo, dentro de tratamentos hospitalares para casos graves e moderados.

Isso porque o medicamento não ataca diretamente o vírus, mas sim pode ajudar a controlar a forte reação inflamatória causada pela covid-19 em pacientes que estão em situação mais grave.

A covid-19 já matou quase 450 mil pessoas no mundo inteiro, e não há tratamentos ou vacinas aprovadas contra ela.

A pesquisa

Por meio de uma nota de duas páginas apresentada à imprensa – e ainda sem divulgação de dados completos ou avaliação de pares -, os pesquisadores de Oxford anunciaram que a dexametasona aumentou a sobrevida de pacientes de covid-19 que estavam hospitalizados.

© Getty Images Pesquisadores divulgaram resultados de ensaio clínico com medicamento, mas estudo ainda não foi publicado

No teste realizado pelos pesquisadores, 2.104 pessoas receberam doses de 6 mg do medicamento uma vez por dia durante 10 dias, enquanto 4.321 não tomaram a droga, e foram tratadas apenas com o cuidado habitual. Trata-se de um estudo clínico randomizado, metodologia das melhores para estudos científicos.

O resultado, segundo os cientistas, mostrou que as taxas de mortalidade dos pacientes graves e submetidos à ventilação mecânica que tomaram o medicamento foram reduzidas em um terço. A mortalidade dos que não estavam em respiradores, mas recebiam oxigênio suplementar foi reduzida em um quinto. Por fim, não houve benefícios para pacientes que não precisavam de ajuda para respirar.

O ensaio faz parte do estudo clínico randômico Recovery, que investiga seis potenciais tratamentos contra a covid em mais de 11 mil pacientes.

Ação do medicamento

A droga, antiga e barata, é anti-inflamatória e, em doses mais altas, imunossupressora. Ela é usada para doenças como a asma e a artrite, ou seja, doenças alérgicas e reumatológicas.

A dose estudada pelos cientistas da Oxford não é uma em que o medicamento teria essa função imunossupressora, e o medicamento já está sendo usado em diversas UTIs como parte do tratamento contra a covid-19.

Ação do medicamento

A droga, antiga e barata, é anti-inflamatória e, em doses mais altas, imunossupressora. Ela é usada para doenças como a asma e a artrite, ou seja, doenças alérgicas e reumatológicas.

A dose estudada pelos cientistas da Oxford não é uma em que o medicamento teria essa função imunossupressora, e o medicamento já está sendo usado em diversas UTIs como parte do tratamento contra a covid-19.

BBC

Os cientistas de Oxford dizem que seu estudo mostrou que a dexametasona reduziu a mortalidade de quem estava hospitalizado em estado grave ou moderado, precisando de ventilação ou oxigênio.

Por isso, não deve ser usado em casos leves nem como prevenção. Não há comprovação da eficácia ou segurança dessa ou de nenhuma droga nesses casos.

Além disso, como a droga pode causar uma ação imunossupressora, diz Raquel Stucchi, infectologista da Unicamp e consultora da Sociedade Brasileira de Infectologia, ela pode ser perigosa se tomada no início da infecção por coronavírus.

“No início da infecção, temos muito vírus se replicando no nosso corpo. O sistema de defesa vai tentar acabar com esse micro-organismo. Quando tomamos dexametasona, nossas células de defesa não vão conseguir agir”, afirma. “Vai inibir nossa ação de defesa e o vírus vai aumentar muito.”

Mas, na evolução da doença, depois do sexto, sétimo ou oitavo dia, de acordo com ela, nosso organismo pode dar uma resposta inflamatória muito exacerbada para combater a infecção. É nessa fase da doença, moderada ou grave, que a dexametasona pode entrar para tirar a inflamação.

É a chamada “tempestade de citocinas”, uma reação imune do corpo potencialmente fatal.

“Quando o vírus invade nosso corpo, temos uma resposta imune. Muitas vezes, essa resposta da imunidade, obviamente para destruir o vírus, acaba destruindo nossa estrutura celular. E a inibição dessa resposta não acontece, deixando o sistema imune desregulado”, diz o infectologista Moacyr Silva Jr., do Serviço de Controle de Infecção Hospitalar e da UTI do Hospital Israelita Albert Einstein.

A ideia do uso do corticoide, então, “é dar uma brecada nesse quadro inflamatório”, explica ele.

Mas o que está acontecendo em relação à covid-19, diz o médico, é que as pessoas querem utilizar medicamentos de casa, sem critério, “de forma desenfreada”.

SEM COMENTÁRIO